quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Dizes

dizes


Como se desfaz a respiração nos rostos: alongando ao ébano das máscaras o desperdício, dizes,/
na evidência há ( quando olhas ) um ímpeto suicida, desferindo com emoção um dardo lanças/
na derradeira verdade dos corpos a repetição, dizes; /
e as máscaras confundem-se no fôlego das faces sôfregas, violentando a pulsão /
os mortos concedem-te um verso, consagrando a tragédia óssea, e a carne teima prisioneira o improviso,/
não foge, dizes.
São lâminas magníficas os olhos e abrindo a boca duplicas todas as coisas doentes e no fastio,
que não cuidas, constróis uma jangada e cospes a fome, essa certa ignorância que atravessa os corpos e, dizes, quando/
ninguém te escuta: são rápidas as mortalhas enfaixando nos olhos o incêndio. /
Não adianta partir com gestos decepados ou fazer uma festa se não celebras as ravinas cansadas da raiva/
e o depois é uma parábola de cinza, faz ulcerar, onde se traz vivo o coração, /
a água ou o cinturão de lume – o que viola o corpo de desejos, dizes; /
e o corpo é de cinza quando deseja o amor que faz: não abre girassóis nem conhece saindo do lodo /
outro corpo: deixa-te preso aos músculos a respiração do moribundo/
e os olhos crestam com esse abalo, dizes, supões atenuar a dor e sem poderes /
perpetuas um intruso golpe, e, tal como a lua não volta a face, /
um presente convulsivo abrevia a sua glória.

9 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Oi, DPM, quem escreveu o poema? Gosta muito de saber, ou será quem eu penso?
Bjs
Nuno

Mapas De Espelho disse...

Sim, Nuno. É fácil adivinhar quem segurou a pena.

Nuno Castelo-Branco disse...

YOUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!

L.C. & H. F. disse...

A repetição do verbo: dizes, num tom monocórdio mas intenso, serve, a meu ver, como uma espécie de apoio ou plataforma ao resto do poema, permitindo-lhe assim a unidade na violência destrutiva da anatomia da alma e do corpo.
“ Dizes “ poderá ainda ser aquele “ no princípio era o verbo “. Principio este que faz, aqui, parte de um tempo circular, isto é, ele é o princípio, mas também o fim. Nesta totalidade a dor e o prazer são lados da mesma moeda. Podemos falar ainda de uma tríade: criar, destruir, criar, ou: amar, odiar, amar, ou: nascer, viver, morrer, desembocando isto numa glória sempre presente: A glória de se ter dito. Pois o que fica é o que foi dito. O poeta morre. Mas, porque maior do que ele, fica a sua palavra: a presença da ausência, ou seja, o que se disse.

Pergunto-lhe: conhece o poeta Gottfried Benn ? Conhece o seu conjunto de poemas : “ Morgue “? E ainda: o autor deste blogue é um poeta ou uma poetisa?

L.C.

Mapas De Espelho ( Imagem Suzzan Blac) disse...

.C. & H. F.,
Não conheço o poeta Gottfried Benn, do todo. Y o meu contacto com a poesia do Nava é muito longínquo y foi pouco explorado...
Digamos que gosto, por pura brincadeira, reivindicar o estatuto de "poetiso". Eu apareço nestas caixas de comentário com a minha outra Identidade ( muito autêntica!) virtual. Espero que não se assuste. Vale.
PS.: Nos exercícios, nem sempre gosto das terminações femininas das palavras, quando “me refiro” na qualidade de sujeito de algo … esse sujeito é muitas vezes impessoal. Logo, fazê-lo corresponder ao meu género era limitar o universo dos sujeitos, ou enunciar essa expressão como intrínseca a um género… ( é por aí que justifico o “poetiso”).

L.C. & H. F. disse...

A impessoalidade do sujeito é uma, ou deve ser uma das características
da poesia moderna. Como Rimbaud dizia: “ J’ai est un autre “, no entanto, não sei bem porquê, mas ao ler a sua poesia (embora
isto não sendo de facto importante ), talvez devido à sua intensidade e violência ( no sentido positivo ), encontrei nela mais um lado masculino do que feminino.
A meu ver o/ a poeta é um anjo (talvez caído) por isso um ser andrógino.
Desculpe ter-lhe perguntado se, como ser do dia-a-dia, era mulher ou homem.
A curiosidade é um dos meus grandes pecados.

L.C.

L.C. & H. F. disse...

Mas uma vez.Portanto o seu nome verdadeiro é: Suzzan Blac. Este nome soa-me holandês, será assim?

de.puta.madre disse...

Não. Esse é o nome da Pintora Inglesa, autora da Imagem que o Mapas de sEpelho adoptou.
Vale. DPM ( ou Mapas de Espelho)

L.C. & H. F. disse...

O ruído do mistério
como um mar encarcerado
Evoé!

L.C.